Cooperante #718

Angela, como chegaste à Rizoma? Então, eu cheguei à Rizoma já não me lembro muito bem como, mas ainda quando estava lá na Mouraria. Como ia muito à Renovar a Mouraria, acho que havia pessoas que faziam parte ou alguém me falou. Então passei lá e fiquei muito interessada, porque não conhecia este tipo de organizações, de cooperativas. Realmente, em Itália não existiam, acho que agora existem também. Fiquei muito curiosa. Depois, quando abriu cá a nova sede, eu estava já na organização. Durante muito tempo fui um bocado ilegal, no sentido em que comprava com amigos, com pessoas que aqui estavam, e depois pensei que queria participar mais, então há tipo dois anos e meio que sou assim mais oficial, legal.
E qual é a tua coisa preferida na Rizoma? Pode ser um produto, um espaço, uma memória… A minha coisa preferida são todos os detergentes. Da casa, da limpeza, da roupa…
O que é que em particular gostas dos detergentes? É o facto de serem biológicos? Sim, no sentido em que acredito mesmo que é uma maneira de se proteger, sou muito sensível com o tipo de produtos dos tecidos. E também da casa, acho muito saudável e realmente acho muito em conta. Portanto, a relação qualidade-preço é incrível. E também tudo o que é produtos pessoais, tipo sabão, óleos essenciais, produtos para a pele, cosmética.
Depois também há coisas tipo manteiga de amendoim crocante – é tipo uma droga, já não posso viver sem. E também outros produtos que compro regularmente: produtos a granel, tipo sementes, essas coisas.
E fazes turno de rizochef, qual é a tua especialidade? Não, eu sou rizobar.
Mas ouvi dizer que gostas de cozinhar, ou não? Eu escolhi rizobar porque pensava que ia estar lá a servir cervejas, tipo imperiais. Na realidade é mais cozinhar também, porque tem de se preparar. E depois muitas vezes aconteceu pedirem-me para fazer um almoço, uma pasta, e realmente às vezes é bonita esta coisa. O que gosto muito da Rizoma é esta coisa de fazer tudo improvisado, desenrascar-se também com as pessoas, encontrar esta cumplicidade em tentar. Mas não quero cozinhar, não, não.
Ah, ok! Eu tinha a informação que gostavas de cozinhar e sabia que safavas uns pratos aqui na Rizoma, mas pensei que eras rizochef. Safava, sim, safava. Não, sou rizobar e também posso fazer mercearia.
E a especialidade é pasta? A especialidade é pasta, porque também é a coisa mais rápida.
Pasta com alguma coisa em particular, alguma coisa que te recordes? A pasta que fiz a última vez, fizemos uma pasta fantástica com um tomate bom, era muito simples, e também burrata. Estava espetacular e pedi a uma outra rizomi, à Giulia, que mora aqui em frente, para trazer manjericão, porque não havia, não era ainda a altura.
És professora, certo? Se pudesses dar aulas na Rizoma, o que é que gostavas de ensinar, sendo que não precisas de estar qualificada para isso? Olha, eu acho que tem a ver com a minha área, então não é completamente fora, de alguma maneira teria competências. E é ligar uma parte mais artística, ligada ao movimento, a técnicas de teatro, com o ensino de línguas estrangeiras, que também é da minha área de investigação. Acho que aqui há um espaço e se calhar também um ambiente que pode ser interessante para este tipo de trabalho. Para explorar, com pessoas muito diferentes, também de muitos sítios diferentes, de línguas diferentes.
Boa, fica o sonho.
Sabemos que foste intérprete do Papa na Jornada Mundial da Juventude, confirmas? Não, intérprete do Papa não. É verdade que a TV Vaticano me chamou para organizar o evento, é verdade que fui intérprete para organizar o evento de gravação, mas não cheguei a tanto, conhecer o Papa.
Ok, ok. Desculpa, ficaste dececionado.
Não, não, queria perceber! Era o Papa Francesco, não era este.
Então foi no Vaticano que trabalhaste? Não, foi aqui, durante aquelas jornadas do Jubileu da Juventude, há três anos. E pronto, eu não sou intérprete, mas chamaram-me para esta TV Vaticano, e ninguém falava inglês, porque os italianos não falam inglês, e tentei fazer mediação para falar de lentes, de coisas que realmente não conhecia, técnicas de gravações do Papa, que chegava ao aeroporto. Mas pronto, não cheguei depois a falar com o Papa. Infelizmente, porque eu gostava daquele Papa.
O teu trabalho era mais traduzir de italiano para inglês? De italiano para português.
E eram as cerimónias ou era só este trabalho de logística? Não, na realidade era um encontro antes da chegada, foi um encontro para poder organizar toda a parte técnica, com uma trupe de pessoas da televisão aqui que pudesse depois assegurar as gravações, porque era super importante. Era uma televisão do Vaticano, então tinha também exclusivo para as melhores exposições, era muito simpático.
Foi uma experiência agradável, então? Estupenda, agradável, eu queria trabalhar com eles, também pagavam super bem, então eu disse, olha, vou ficar aqui, se quiserem. Mas já tinham outras pessoas.
Última pergunta: como é que vês a Rizoma daqui a cinco anos? Espero que continue bem. Eu não consigo vir muito, participar muito nas reuniões. Acho que deveria ser um bocadinho mais aberta para pessoas que não são da Rizoma, ou ter alguns dias que são abertos a todos. Acho que seria melhor esta abertura, que é uma abertura não só, digamos, económica, para que entre mais dinheiro, mas também para que seja um lugar onde as pessoas possam ir, não tão exclusivo. Se calhar num espaço maior, porque apesar de no verão se poder utilizar o exterior, no inverno é mais difícil, e não há uma capacidade de produção durante, pelo menos, os almoços. Mas, não sei, como às vezes algumas amigas dizem, “passei na Rizoma, mas depois não consegui comprar, percebi que não se podia consumir”. Eu, sinceramente, achava que era bom abrir o consumo a outras pessoas. Se calhar não sempre, encontrar uma maneira, ou alguns dias.
O que estou a ouvir é uma Rizoma maior, mais aberta, mais plural, que consiga receber bem as pessoas que não fazem parte e ter uma estrutura talvez um pouco menos fechada. Exato, se calhar sim. Gostava, mas espero muito que em cinco anos vá estar assim, em boa saúde. Como todos nós.
Muito obrigado, Angela. Foi um gosto.
Também para mim. Obrigada.
13 de maio de 2026