Cooperante #271

Como é que chegaste à Rizoma? Cheguei à Rizoma através de um amigo com quem tinha andado na faculdade. Não éramos muito próximos nessa altura, mas andámos na faculdade juntos e depois em 2022 tivemos um date, porque nos encontrámos numa dating app. Nesse date falei-lhe bastante de como estava no partido LIVRE há uns meses e estava um bocado desiludido, e a impressão que estava a ter da política partidária. E ele falou-me deste projeto que estava aqui a acontecer, na Mouraria, que era uma mercearia autogerida, explicou-me o filme todo, e disse que eu devia vir experimentar. E passado dois dias já estava numa reunião, levou-me para uma reunião da task force que estava a organizar a festa de abertura deste novo espaço na José Estevão. E, dois dias depois, encontrei mais uma amiga com quem tinha andado na faculdade que estava a dar a minha sessão de boas-vindas, que era a Mariana Reboleira, e etc., etc.
Portanto, já tinhas muitas pessoas conhecidas (pelo menos duas)? Não tinha muitas, tinha três: o Tiago, a Mariana e a Carol Ribeiro, que estava nesse momento a trabalhar, era staff, era cooperante com salário. Essas três pessoas, eu tinha estado na faculdade com elas, acho que eram as únicas que conhecia.
Qual é a tua coisa favorita na Rizoma? As pessoas, os produtos, o espaço? Tens alguma memória a quereres destacar? A minha coisa favorita da Rizoma é o “quebra-gelo”. Já sofreu muitas metamorfoses… Acho que é a minha coisa favorita devido à imagem que criei do quebra-gelo quando ele existia há três anos, que era um sítio, um momento de sexta ao fim da tarde em que as pessoas se encontravam informalmente na Rizoma, não havia assim eventos de maior, mas era sempre um espaço reservado para a comunidade se conhecer e integrar novos membros, tipo todas as semanas, era esse o propósito que ele servia. Foi assim que conheci imensa gente da Rizoma, ou seja, se não tivesse planos nessa sexta à noite, vinha para aqui, já sabia que podia contar com outras pessoas da Rizoma estarem aqui, podia conhecê-las ou não. E isso foi um grande ingrediente para começar a interpretar isto como uma comunidade.
Entretanto o quebra-gelo já foi muitas outras coisas: depois passou a ser muito à volta de concertos e eventos com grande produção, agora é uma coisa mais esporádica. Mas hoje nós estamos aqui num quebra-gelo, e portanto eu queria dizer isso, que hoje por acaso foi novamente um momento em que várias pessoas novas apareceram, e eu acho que é o momento-chave para as pessoas novas da Rizoma poderem começar a conhecer gente.
O que é que gostas mais de fazer durante o teu turno? Bom, para já eu tenho dois turnos diferentes. Faço turno de entregas em bicicleta da horta, entre a Rizoma e a horta – portanto, levo composto para a horta da cultiva, da Secção Agrícola, e depois trago encomendas para cá –, e tenho também turno de caixa. Os dois são muito fixes, como podem calcular, mas eu adoro fazer caixa. Adoro. Já fiz os turnos todos da Rizoma, e caixa realmente é um espaço onde pessoas que funcionam a altas rotações, como eu, conseguem proliferar bastante facilmente.
E eu gosto muito de fazer de RP, receber as pessoas que entram pela porta e nunca estiveram aqui antes, ou pessoas que estão à procura de alguém específico para uma coisa específica, gosto desse atendimento ao cliente. E gosto também de estar à conversa com quem faz compras, de discutir sobre produtos, perguntar às pessoas o que é que vão fazer com aqueles ingredientes. Olha, daquelas coisas que há 4 ou 5 anos eu nunca tinha sonhado que ia gostar de fazer – caixa de mercearia -, e amo.
Achas que és mais conhecido pela tua hair routine de caracóis ou pela acumulação de eventos no mesmo horário? Não sei se gosto destas rasteiras. Os meus caracóis já sei que dão nas vistas, as pessoas gostam muito de falar deles, eu gosto muito deles e de os tratar. Gosto de falar sobre os cuidados de caracóis, como o meu interlocutor bem sabe, que é meu discípulo nesta escola. Se sou mais conhecido por isso ou por marcar muitas coisas ao mesmo tempo… Acho que a minha desorganização social passa mais despercebida. É uma coisa que me afeta mais a mim do que aos outros, e os caracóis estão à frente de toda a gente. Mas se calhar se eu pudesse escolher uma coisa para ser mais conhecido, escolheria o caos da minha agenda.
É uma escolha difícil, esta. É difícil, mas eu tenho um carinho pelo overbooking.
Em tempos de maior instabilidade política e financeira, sentes o teu espírito cooperativista mais reforçado? Sim. Quando o mundo nos lança estas coisas que parecem maldições e períodos de grande provação e crise e catástrofe climática, para onde é que nós nos viramos? O desespero é uma coisa que prolifera muito facilmente, mas nessa altura o meu instinto, e se calhar o instinto natural de muita gente, é olhar em nosso redor e ver com que linhas é que nos podemos coser, com quem é que podemos contar. E para mim o cooperativismo é uma manifestação ou materialização disso. Estes princípios da autonomia, da autoemancipação, de que temos de contar com as pessoas que estão à nossa volta e nós é que nos ajudamos umas às outras e não dependemos de grandes grupos económicos ou de estados omnipotentes. Hoje estivemos a ver um filme em que um lema que eu guardei é: as coisas até podem dar errado, mas ao menos nós ficamos mais satisfeitos se soubermos que foi por nossa agência que deu errado.
Pronto, o que eu acho que quero dizer é que na Rizoma temos tantas secções, tantos projetos diferentes em que qualquer pessoa que faça parte pode ter um papel a desempenhar, serve imensos interesses diferentes, imensas competências diferentes, e portanto se nós quisermos criar um mundo em que somos nós que decidimos o que é que consumimos, como é que consumimos, para quem é que trabalhamos, em que termos, como é que habitamos um espaço, como é que são as casas em que nós queremos viver, o cooperativismo – a Rizoma é a materialização mais concreta desse cooperativismo para mim – dá-nos essa ferramenta, essa estrutura, esse sistema de como é que podemos ser nós a decidir como é que essas coisas funcionam, não é? E portanto deixa uma pessoa mais à vontade para dizer “fuck Trump” e “fuck capitalismo” e todas as cadeias de valor que destroem o planeta e as comunidades pelo caminho para gerar dinheiro.
Muito obrigado, João Fanha. Terminamos assim com uma mensagem esperançosa, como o cooperativismo pode ser uma resposta de solidariedade, amizade e de revolução também. Não percam o próximo episódio, porque nós também não.
16 de janeiro de 2026